Mil vidas dentro de mim.

 Às vezes, fecho os olhos e sinto como se carregasse dentro de mim mais de mil vidas. Não é imaginação, nem delírio. É um peso suave, silencioso, como uma memória esquecida que insiste em retornar. Cada gesto, cada intuição estranha, cada emoção que não sei nomear parece vir de longe — de muito antes de mim.

Em mim habita um camponês, mãos calejadas, olhos fixos no céu cinzento da Escócia do ano 800. Ele conhece o vento que passa pelas colinas, o cheiro da pedra molhada, o silêncio das manhãs de neblina.

Sou também o soldado soviético, enterrado até os joelhos na neve, fuzil na mão, medo e ódio nos olhos. Sinto o estrondo dos canhões como se fosse meu próprio coração explodindo.

Num outro recanto da alma, mora o eremita, cercado pelo silêncio absoluto das montanhas. Ele fala com os corvos, com as pedras, com os ecos. Vive em paz, mas sabe o preço da solidão.

Em mim pulsa o caos das avenidas de Nova York. O cosmopolita que se perde em multidões e se encontra nas vitrines, nas conversas rápidas, nos bares iluminados. Conheço os ritmos do concreto, as camadas de vida que sobem até o céu em forma de arranha-céus.

Mas também há sombras: um skinhead nos becos de Londres dos anos 70, raiva confusa tatuada na pele, buscando identidade no ódio. E no outro extremo, o Pantera Negra, punho erguido, coração inflamado de justiça, enfrentando a violência com coragem, sangue e sonhos.

Sou o cowboy solitário, cavalgando ao lado dos que resistem, protegendo a terra com olhos firmes, justiça nas mãos e poeira nos ossos.

Sou o monge budista que contempla o nada até que o nada o contemple de volta. O pescador norueguês que lança redes sobre mares que engolem o céu, enfrentando o frio com a alma aquecida pela ancestralidade.

Essas vidas me habitam. Não as vivi com este corpo, mas as sinto. Estão entranhadas em mim como raízes invisíveis. Como se, ao nascer, tivesse herdado um baú de existências. Cada uma delas me molda em silêncio.

Talvez todos sejamos isso — colagens de histórias, almas que reciclam experiências, tentando aprender com as cicatrizes do tempo. Talvez viver seja isso: reconhecer em si a multidão que nos antecede e, ao mesmo tempo, encontrar a própria voz no meio do coro.

Eu sou mil, mas sigo sendo um. E nisso, há mistério, beleza e sentido.

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