Mil vidas dentro de mim.
Às vezes, fecho os olhos e sinto como se carregasse dentro de mim mais de mil vidas. Não é imaginação, nem delírio. É um peso suave, silencioso, como uma memória esquecida que insiste em retornar. Cada gesto, cada intuição estranha, cada emoção que não sei nomear parece vir de longe — de muito antes de mim. Em mim habita um camponês, mãos calejadas, olhos fixos no céu cinzento da Escócia do ano 800. Ele conhece o vento que passa pelas colinas, o cheiro da pedra molhada, o silêncio das manhãs de neblina. Sou também o soldado soviético, enterrado até os joelhos na neve, fuzil na mão, medo e ódio nos olhos. Sinto o estrondo dos canhões como se fosse meu próprio coração explodindo. Num outro recanto da alma, mora o eremita, cercado pelo silêncio absoluto das montanhas. Ele fala com os corvos, com as pedras, com os ecos. Vive em paz, mas sabe o preço da solidão. Em mim pulsa o caos das avenidas de Nova York. O cosmopolita que se perde em multidões e se encontra nas vitrines, nas co...